texto  olivia ardui


Os funcionamentos fisiológicos e cognitivos da
visão, bem como os artifícios e condições de
criação do campo imagético, estão no cerne do
trabalho de Ding Musa. Por meio de jogos de

perspectiva e de ótica, suas fotografias e instala-
ções trazem à tona questionamentos sobre a visão

retiniana e a natureza da imagem fotográfica como
registro de uma suposta realidade. Para tanto, o
artista recorre, frequentemente, ao espelho, não
só como dispositivo, mas também como princípio
compositivo.
Em Infinito [2011], por exemplo, posiciona tijolos
diante de três espelhos. Dependendo do ângulo em
que se vê a obra, o símbolo do infinito é sugerido.
Já em Tangente [2010], um círculo de pequenas
pedras se desenha em torno de uma quina na qual,
em uma das paredes, o artista faz uso, outra vez,
de um espelho, enquanto, na outra, uma fotografia
com as mesmas dimensões do espelho apresenta
uma linha de pedras análogas. Se, por um lado, o

espelho parece fechar o círculo, por outro, a foto-
grafia sugere a fuga de uma possível órbita.

Em Espelho [2008], o artista coloca lado a lado

duas fotografias de um espelho de banheiro que re-
flete uma parede de azulejo. Se à primeira vista elas

parecem idênticas, ao olhá-las mais atentamente
nota-se uma sutil diferença: uma foca no reflexo,

enquanto a outra foca no seu entorno. Assim, o es-
pelho e seu reflexo não são tomados apenas como

peças centrais das fotografias, pois a aproximação
entre elas alude à ideia mesma de espelhamento.
Se tal disposição de imagens similares pode sugerir
associações entre elas, também se acentua uma
diferença fundamental: o que se quer dar a ver.
O que é o reflexo, o que é imagem e o que é a
construção cognitiva do espectador? A partir do
agenciamento de elementos e objetos ordinários,

o trabalho de Ding Musa aponta para essa ambi-
guidade, jogando, sobretudo, com a expectativa e

dúvida do observador. Nesse sentido, os diferentes
trabalhos do artista colocam em crise tanto um
modo de ver quanto a própria ideia – ou, quem

sabe mesmo, falência – da representação. Sua obra
salienta a inconsistência e a relatividade de pontos
de vista, bem como a facilidade de manipular e
enganar a visão, sugerindo uma falsa impressão de
coerência e de identificação, quando, na verdade,
parece enfatizar mais rupturas do que continuidades.
The physiological and cognitive functioning of vision, as

well as the artifice and conditions for creation of the im-
agetic field, are at the core of Ding Musa’s work. Through

games of perspective and optics, his photographs and instal-
lations call into question the workings of the retina and

the nature of photographic images as record of an alleged
reality. To this end, he frequently resorts to the mirror, both
as a device as well as a principle of composition.
In Infinito (‘Infinite’) [2011], for example, he positions
bricks in front of three mirrors. Depending on the angle
from which one views the work, the symbol of the infinite is
suggested. In Tangente (‘Tangent’) [2010], a circle of small
stones is arranged around a corner in which, on one of the
walls, the artist makes use of a mirror once again; while in

the other, a photograph of the mirror with the same dimen-
sions shows a line of similar stones. If on one hand, the

mirror seems to close the circle, on the other, the photograph
suggests escape from a possible orbit.
In Espelho (‘Mirror’) [2008], the artist places two
photographs side by side of a bathroom mirror reflecting a
tiled wall. If at first sight they seem identical, on a closer
look, a subtle difference can be detected: one focuses on the
reflection, while the other focuses on its surroundings. Thus
the mirror and its reflection are not only taken as central
elements in the photographs, but their proximity alludes
to the very idea of mirroring. If such an arrangement of
similar images can suggest associations between two images,
on the other hand, it accentuates a fundamental difference
between them: what is meant to be seen.
What is the reflection, what is the image and what is the
viewer’s cognitive interpretation? By ascribing free agency
to ordinary elements and objects, Ding Musa’s work homes
in on this ambiguity, playing above all with the viewer’s
expectations and uncertainties. In this light, the artist’s

different works precipitate a crisis both for a way of see-
ing as well as for the very idea – we might even say the

bankruptcy – of representation. His work underscores the
inconsistency and relativity of points of view, as well as the
ease of manipulating and playing tricks on our vision to

engender false presentiments of coherence and identifica-
tion, although it actually seems to highlight disruptions

more than continuities.