RAID-8

... sem suas contradições, sem os mal-entendidos que criou - por instinto  ou por cálculo - a seu próprio respeito, seu caso há muito tempo estaria liquidado, sua carreira encerrada, e ele conheceria o azar de  ser compreendido, a pior coisa que pode acontecer com um autor.
E.M. Cioran (sobre Joseph de Maistre)

 

Em 2002, alguns dias depois da inauguração da Documenta 11, o curador Jens Hoffmann e o artista Carsten Höller, durante uma conversa em Estocolmo, chegaram à conclusão de que a edição seguinte da grande mostra em Kassel deveria ser curada por um artista. Nasceu assim o projeto The Next Documenta Should be Curated by an Artist, organizado numa série de entrevistas e discussões entre Hoffmann e vários dos artistas mais respeitados da cena contemporânea, cujos depoimentos estão agora reunidos em livro . De certa maneira, se atendida, a demanda de Hoffmann representaria a culminação e a renegação de uma atividade (universalmente denominada, hoje, “curadoria”) que os artistas vêm exercendo pelo menos desde o começo do século XX. Nenhuma Documenta foi, ainda, curada por um artista, mas em anos recentes artistas organizaram algumas das bienais universalmente consideradas mais importantes (Artur Żmijewski curou a 7a Bienal de Berlim, em 2012, por exemplo, e Christian Jankowski a 11a edição da Manifesta, em Zurique, em 2016), além de integrar os comitês curatoriais de grandes exposições ao redor do mundo. É difícil decidir, porém, se essas atuações de artistas no papel de curador respondem de fato ao mesmo incômodo causado pela sensação experimentada por Hoffmann e Höller, qual seja, a de que numa exposição concebida e organizada por um curador falta algo que só um artista sabe captar e transmitir. Parece até mais plausível o oposto: que a escolha de um artista para o papel de curador representa, no fundo, apenas uma distorção da prática curatorial, na busca de formatos e modelos expositivos cuja maior (ou talvez, única) ambição é serem inovadores. Em outras palavras, esses exemplos representariam então, como dizíamos antes,  a renegação mais completa da tradição da exposição concebida e organizada por artistas, no sentido que a operação consiste em colocar o artista num lugar que não é o seu, quando deveria consistir em transformar o próprio formato expositivo em algo condizente com a atividade artística e não, como vem acontecendo mais e mais, com a atividade curatorial.

Numa escala evidentemente menor da de bienais e “documentas”, e sem muito alarde, RAID-8 busca, talvez, exatamente essa transformação. Talvez, porque os artistas envolvidos não estão propondo abertamente uma discussão pública do formato expositivo, e menos ainda algo parecido com um manifesto, nem priorizaram, na concepção da mostra, uma discussão sobre a maneira como ela seria percebida pelo público. O que moveu a concepção da iniciativa parece ser algo mais íntimo, que diz respeito a um entendimento da prática artística como indissociável da constante discussão franca e aberta do trabalho, seja no âmbito de grupos de estudo organizados ou, de maneira mais informal, em ocasião de exposições coletivas. Se RAID-8 pode ser considerada, então, o desdobramento de uma discussão em curso, isso não contradiz a premissa de que, como exposição, ela representa, de fato, um experimento de curadoria de artista, já que uma exposição organizada por artistas não pode e nem deve tentar se encaixar num formato “convencional”  . É por isso que este texto não foi escrito com o intuito de examinar em profundidade o trabalho de cada um dos artistas participantes, nem de olhar para a maneira como poderia ser traçada ou interpretada uma teórica “linha curatorial” da exposição, já que isso equivaleria a tentar disfarçar RAID-8 de algo distinto do que ela é, tornando-a também mais banal e previsível. Tornando-a, isto é, apenas uma exposição. Ao renunciar a um partido curatorial claro e legível, o risco de uma iniciativa como RAID-8 é de tornar-se incompreensível, ou melhor, de não poder ser compreendida de uma maneira literal, unívoca e de certa forma pacificadora, como uma parte do público sempre espera e deseja. Mas esse risco constitui também sua maior força, porque a opacidade obriga o observador a dar um passo atrás, a entender que a leitura tem que ser mais ampla e abrangente, que a exposição só pode ser compreendida a partir da inter-relação de suas partes. Esse passo atrás é o que a verdadeira arte nos obriga a dar, e é por isso que parece perfeitamente legítimo afirmar que RAID-8 é, também, uma obra de arte.

O acrônimo RAID (Redundant Array of Independent Disks, ou Conjunto Redundante de Discos Independentes), descreve um sistema de armazenamento de dados composto por vários discos, que se integram e permitem, a partir das diferentes formas de se combinarem e arranjarem, diminuir substancialmente o risco de perda de informações, ou aumentar a performance, a capacidade e a velocidade de processamento de dados. Existem distintas tipologias de RAID, desde as mais simples, como RAID 0 (que divide a informação armazenada em segmentos divididos em vários discos) ou RAID 1 (que espelha o banco de dados de um disco em outro, para garantir segurança), até as mais complexas, que trabalham com a subdivisão da informação em blocos e espelhamentos parciais desses blocos em dois ou mais discos. O que de fato importa, pelo menos no âmbito da exposição e pela compreensão do valor simbólico e metafórico do seu título, é que um RAID funciona de maneira invisível, intangível e, principalmente, coletiva: um dos discos poderia falhar e o RAID continuaria funcionando enquanto o defeito for corrigido, mas o sistema como um todo só existe na combinação dos seus elementos. É nisso, evidentemente, que ele representa a metáfora perfeita para a exposição, que foi concebida, em primeiro lugar, a partir de uma teia de relações, e onde a interdependência entre as partes (os artistas e as obras) é o que faz funcionar o sistema. O que define seu modus operandi é intangível e invisível, e isso, como dizíamos antes, porque o evento não foi concebido e articulado visando a compreensão do público, mas a partir das poéticas individuais de cada um dos participantes, e principalmente das relações pessoais e das afinidades ou idiossincrasias que eles identificam entre suas obras, mesmo que essas afinidades não sejam, em última instância, evidentes para os visitantes. O que moveu o projeto desde o princípio foram as conversas entre artistas: os que estão na exposição, obviamente, mas também inúmeros outros com quem cada um deles, por sua vez, se relaciona ou relacionou em algum momento. De certa forma, então, RAID-8 é um acontecimento metonímico, que aponta para uma prática discursiva e relacional muito mais ampla, que, como um RAID convencional, é potencializado pela inter-relação de suas partes, até culminar na formatação de uma mostra e na produção de um catálogo.

Naturalmente, existem relações pessoais e artísticas de várias ordens, em RAID-8, mas nenhuma delas esgota o leque de possíveis ressonâncias . Carla Chaim, Carlos Nunes e Ding Musa, por exemplo, integraram e organizaram, nos últimos anos, distintos grupos de discussão entre artistas, alguns de longa duração, outros mais efêmeros e ligados a eventos ou exposições pontuais. Além disso, todos eles, como também Geórgia Kyriakakis, são representados pela Galeria Raquel Arnaud, que não pode ser considerada apenas, neste caso, um lugar expositivo neutro, mas constitui uma das referências conceituais de onde surgiu a própria ideia da exposição. Trata-se, sem dúvida, de um dos espaços mais carregados de história(s) no Brasil: não apenas, ou não tanto, no sentido de uma sedimentação cronológica, mas, mais especificamente, porque ela representa, como já escreveu Ronaldo Brito, “um lugar de consolidação da nossa modernidade”  . Um lugar, isto é, onde a atividade expositiva foi entendida desde seu início como afirmativa, engajada na defesa de um programa consciente e definido. Ao longo das décadas, o rigor e a clareza desse programa têm se firmado como marcas registradas da galeria, ao ponto de tornar irrelevante, ou pelo menos secundária para o grande público, a “história” de como o espaço nasceu, do desejo, que sempre esteve entre as motivações de Raquel Arnaud, de fornecer aos artistas um espaço onde expor, mas também onde conviver, trocar impressões e opiniões, sedimentar alianças ou então discordar. Se, por um lado, as poéticas e as escolhas formais dos artistas incluídos em RAID-8 podem parecer distantes da matriz construtiva com que é convencionalmente associada a galeria, por outro o espírito com que a exposição é organizada é, então, substancialmente fiel às suas raízes, e representa, no fundo, um convite explícito à revivificação dessas raízes.

Existem também, evidentemente, afinidades de ordem poética: o trabalho de Carla Chaim e Carlos Nunes, por exemplo, é organizado, com certa frequência, a partir de parâmetros pré-definidos, que são depois seguidos à risca, como acontece também, mesmo que com um rigor programaticamente menor, em alguns trabalhos de Tiago Mestre. Surge, assim, uma obra que é extremamente física e presente, mas que encontra ao mesmo tempo sua razão de ser mais profunda nas premissas conceituais nas quais se baseia, sejam elas matemáticas, no caso de Carla, cromáticas, em alguns trabalhos de Carlos, ou de ordem espacial, como nas escultura de Tiago que ocupam interstícios geralmente não observados e não utilizados da galeria. Ding Musa, por sua vez, parte muitas vezes de uma exploração dos limites da fotografia e de seu papel de representação, que informa de certa maneira também o trabalho da Geórgia Kyriakakis, apesar dessa representação ser desviada por Geórgia, frequentemente, através da inserção de palavras de forte carga simbólica, e por Ding com recursos apenas visuais. Nesse sentido, o trabalho que mais diretamente dialoga com o do Ding, no âmbito de RAID-8, é provavelmente o de Iñaki Domingo, que propõe imagens extremamente precisas, ao ponto de parecerem quase abstratas, o que permite aproximá-las das peças, reais e contudo fugidias, de Raul Diaz Reyes, cujas esculturas/fotografias/pinturas situam-se num lugar híbrido entre bi- e tridimensionalidade. Um espaço híbrido é o que sugerem também alguns trabalhos recentes de Carlos Nunes, que vem usando a fotografia como momento de verificação e culminação de um processo instalativo e espacial. A maneira extremamente cuidadosa como ele arranja elementos encontrados no seu ateliê ou nas ruas em base à sua posição na escala de cinzas de uma foto em preto e branco, lembra, por outro lado, algumas intervenções de Takashi Kuribayashi, ou seus desenhos/propostas para instalações de grande escala. Por outro lado, Takashi carrega em seu trabalho mais recente uma preocupação com questões sociais e políticas que ecoa, menos imediata e mais poética, em algumas obras de Geórgia...

Como deveria ter ficado claro, o intuito de um índice programaticamente rápido e até superficial como esse, não é de fornecer pistas reais quanto às afinidades a ser identificadas entre as obras, supostamente guiando a interpretação e compreensão da exposição como um todo. De maneira quase oposta, o propósito é reafirmar que o lugar onde a exposição de fato acontece é o espaço, indefinível, entre uma obra e a outra, entre um artista e o outro. Tentando tatear esse lugar de uma maneira mais poética, poder-se-ia dizer que RAID-8 não é propriamente uma exposição, é antes uma epifania, mas uma epifania laica e até prosaica: a mera aparição de um conjunto de obras num espaço. Se essa profissão de simplicidade e objetividade pode parecer forçada, talvez seja porque só os artistas sabem desmistificar a arte: a nós, críticos e curadores, cabe apenas observar e registrar que às vezes sermos entendidos é, efetivamente, a pior coisa que possa nos acontecer. Jacopo Crivelli Visconti

 

[1] Jens Hoffmann (ed.), The Next Documenta Should be Curated by an Artist, e-flux/Revolver, New York, USA, 2004.

[2] Que incluiria, além de um texto introdutório claro e bem–escrito sobre os artistas e as obras, imagens em alta resolução para divulgação, plantas e planos de montagem cuidadosamente estudados, etc...

[3] Significativamente, Resonancias foi o título da exposição de Iñaki Domingo e Ding Musa, no espacio Tabacalera, em Madrid, em 2015.

[4] Ronaldo Brito, ‘Galeria Raquel Arnaud: um destino moderno’, em Charles Cosac, Ana Carolina Ramos (ed.), Afinidades: Raquel Arnaud, CosacNaify, São Paulo, 2014, Vol. 2, p. 38.